A Fantástica Vida do Analista de Sistemas
São 05:27 da manhã. Ainda não dormi. Daqui a duas horas vou completar 24 horas sem dormir, e vindo de uma noite mal dormida depois de ter ido ver Audiofílicos no Bleecker Street. Dor de cabeça o dia todo. Não foi fácil.
Tinha uma alteração grande no sistema pra fazer. Campeonato Brasileiro vai começar hoje e, se eu não fizer o que estou fazendo, provavelmente vai chover de ligações na Central.
Primeiro altero as configurações necessárias. Script de 1027 linhas; montadas uma a uma; conferidas seguidamente como só eu consigo conferir. Coloquei pra rodar e fui tomar um copo de leite as 2 e pouco da manhã. Sem conferir tudo, confirmei a alteração. Apenas um errinho, minúsculo. Na verdade um equívoco. Corrigi.
Chega então a parte mais crítica. É preciso enviar essas novas informações para os assinantes. Milhares e milhares de comandos passeando por todo o Brasil com o simples pressionar de uma tecla.
Eu poderia acompanhar o processo. Num monitor remoto eu consigo ver o quê eu tenho esperando na fila e se, pelo menos, o que eu fiz está ou não funcionando. Acesso o monitor. Mensagem de indisponibilidade das 2 às 6 da manhã, em horário do Leste dos EUA. Faço os cálculos. Duas horas a mais pra nós. Isso deveria ter saído do ar às 4 da manhã, não às 2 (daqui). Falo com o pessoal de apoio; mesmo problema. Fico apreensivo. Vou ter pelo menos 4 horas de sombra, sem saber o impacto do que estou fazendo. Confiro milhares de vezes o que preciso rodar. Sei que vai demorar horas. Sei que vai ser pesado. Sei que vai sobrecarregar tudo. Sei que pode não terminar antes do previsto. Penso no previsto: 3 da tarde, quando começa o primeiro jogo. Será que vai dar? Procuro por mais informações acerca do que eu estava executando. Aparentemente está ok.
E agora cá estou eu. Aparentemente "liberado" pra ir dormir, mas completamente apreensivo por não saber o que está acontecendo do lado de lá. "E se eu fosse até a empresa de TV a Cabo?", penso. "Eu poderia ver a informação direto da origem, no mínimo". Penso no meu sono; no perigo de dormir ao volante; na preguiça de me levantar; no barulho que o portão vai fazer; na minha preocupação excessiva por nada. Mas eu sou excessivamente preocupado! Minha mania de perseguição me persegue, aliás.
Confiro novamente a documentação que foi deixada comigo. 3, 6, 8, 12, 15... é... realmente é muita informação. Cada um gera vários comandos. Cada comando é enviado individualmente. Sobrecarga no sistema pode pará-lo. Mas não havia tempo de dividir as cargas. Já penso no telefone tocando enquanto eu durmo.
Contacto uma outra pessoa que pode ter a informação que eu preciso. Às vezes acho que ninguém dorme nessa empresa. Você acha quem você quer em qualquer horário; às vezes com a facilidade de alguns cliques pelo sistema de troca de mensagens da empresa. O rapaz me responde. Ele está atordoado e já estava ligando pro responsável pelo sistema no Sul. Uma vez o sistema entrou em loop e acumulou comandos que não existiam. Mas dessa vez sou eu. Pergunto números. Poucas centenas. Está baixo. Ufa! Posso mandar mais uma carga. Ah, sim... nesse meio tempo recebi um erro. Bom, porque pelo menos o sistema pára.
Estranho meu cérebro. Ainda não pediu pra parar. Por mais que o dia tenha sido pesado, as idéias ainda fluem perfeitamente. Tenho todo o código na cabeça. Encontro o erro, corrijo, comento algumas linhas e ponho pra rodar de novo. Será uma longa manhã.
Ouço um CD do Dave Matthews Band, ao vivo, gravado no começo desse ano. Cansei de ouvir ClubFM e Chillout. A música ao vivo dá um ambiente diferente; dá ânimo.
Às seis e meia da manhã decido que é hora de parar um pouco. Por mais que eu sinta que eu possa passar mais 48 horas acordado, vou precisar de toda energia durante o dia de hoje. O Campeonato Brasileiro esse ano promete começar "causando".
Vou dormir às 6 e meia e acordo às 8 e meia com o telefone tocando. O chefe querendo saber se o que tinha que ser feito foi feito. Eu disse que sim, e ele disse que o pessoal estava reclamando que não foi enviada a quantidade de comandos que deveriam. Depois de duas horas de sono levanto-me e vou conferir o trabalho. Passo a manhã toda processando informações e no telefone. Às 13 horas decido sair pra almoçar.
Depois do almoço, passeando pelo Shopping (um pouco zonzo de sono) recebo uma ligação. Mais problemas. Tenho que voltar pra casa. Acesso e resolvo que vou dormir de novo. Deito no sofá e só me lembro de ter ouvido o telefone tocar duas vezes (ele tocou seis vezes).
E cá estou eu. Às vezes acho que tô fazendo treinamento pra participar do próximo ano da série 24 Horas. Às vezes acho que vou ficar louco muito antes de conseguir usufruir do meu esforço (de verdade). Às vezes acho que estou num caminho sem volta. Mas o que todos nós concordamos, e eu também é que: "A gente se fode, mas se diverte". (rs...)





Leia este blog no seu celular